2 de jun. de 2014

O mantra maligno do “Ame o que você faz, faça o que você ama”*

O novo mantra do trabalho na pós-modernidade[2] é o “ame o que você faz, faça o que você ama”. Devemos amar o que fazemos para não percebermos que estamos trabalhando. Para, no fim das contas, não ser um trabalho, mas um prazer. O trabalho[3], por usa vez, deve ser aquilo que nós amamos – devemos fazer o que amamos e amar o que fazemos, a relação deve ser de duas vias. Entretanto, este mantra não é somente um conselho da pós-modernidade para seus trabalhadores, funciona mais como um imperativo. As informações são do Jacobin Magazine.

Apesar de ser o mantra não-oficial do trabalho na pós-modernidade, este suposto inofensivo lema carrega em si uma função muito mais perigosa. Ele desvaloriza o trabalho, retira seu status e impossibilita que os trabalhadores peçam melhorias em suas condições de trabalho, indo um pouco mais além, ele também desumaniza toda uma categoria de trabalhadores em cargos sem exercício intelectual/criativo.

Este mantra, segundo Miya Tokumitsu, direciona o trabalhador para a busca da felicidade individual[4], o fazendo esquecer que, enquanto trabalhador, não está sozinho na sociedade, mas tem responsabilidades de classe com os outros trabalhadores, quer ele goste do trabalho ou não. Este mantra retira o olhar coletivo do trabalho e privilegia unicamente algumas poucas categorias de trabalhadores, já que, quando se repete incessantemente que o trabalho deve ser amado e que se deve trabalhar com o que se ama, o que se diz é que o trabalho não é algo que deve ser feito por uma compensação (como o salário), mas deve ser feito como um “ato de amor-próprio”.

Um dos mártires deste mantra é o mais-que-conhecido Steve Jobs. Em um discurso para a turma de formandos de 2005[5], na Universidade de Stanford, ele diz mais ou menos o seguinte:

“Vocês precisam achar o que vocês amam. E isso é verdade para seu trabalho e para aquiles que você ama. Seu trabalho irá preencher uma grande parte da sua vida e a única maneira de estar plenamente satisfeito é fazendo algo que você acredita ser um bom trabalho. E o único jeito de conseguir trabalhar bem é fazendo o que você ama”.

As palavras “você” e “seu” são repetidas oito vezes, como Tokumitsu atesta. O discurso é inteiramente centrado no “eu”. O indivíduo e sua felicidade que só pode ser alcançada individualmente.

A Apple seria um desses lugares que te fazem amar o trabalho. Seria um desses lugares em que o trabalho amado é valorizado, entretanto, por trás de uma Apple, existe uma montanha de trabalhadores mal-remunerados que com certeza não têm espaço nessa compreensão do trabalho enquanto amor-próprio.

Pior ainda, essa noção do trabalho que precisa ser amado e do trabalhador que precisa amá-lo cria divisões dentro da própria classe trabalhadora, até mesmo a liquefaz, já que elimina a noção do trabalho enquanto produção coletiva e o substitui pela noção do trabalho parte de um projeto individual de felicidade. Os trabalhadores que estão incluídos na categoria que pode “amar” seu trabalhos, são os trabalhadores de colarinho branco, os trabalhadores de escritório e de trabalho criativo. O restante não é incluso neste mantra. Nem podem, afinal, o alcance da felicidade individual só é uma busca de fato para aqueles que podem se adaptar à sociedade de consumo.

Faça o que ama, ame o que faz

Baixa de salários

Há também a questão dos péssimos salários de pesquisadores e as péssimas bolsas nas universidade. Quem são os mais afetados pela ideologia do amor ao trabalho? Justamente aqueles que deveriam fazer seu trabalho como uma vocação por excelência. Os professores universitários, pesquisadores e bolsistas em geral estão cada vez mais próximos da miserabilidade em suas profissões. Professores em geral já vivem nesta lástima. Como um professor pode exigir melhores salários quando o lema de sua profissão é o amor?

Tokumitsu retrata uma estratégia em algumas empresas “cools” em fazer do próprio ambiente de trabalho uma possibilidade de felicidade para o empregado. Ou seja, empresas de publicidade, moda, empresas do momento, empresas “cools”, pagam salários mais baixos pois oferecem um espaço para que o empregado alcance o máximo possível de seu amor pelo trabalho.

As atividades relacionadas com as artes recebem esta pressão, pois a arte não pode, em nenhum circunstância, ser do mercado. A arte precisa ser regida pelas regras da arte. A aproximação do trabalhador que ama seu trabalho com o artista que pertence ao campo da arte é óbvia. Não se deve reclamar dos aspectos econômicos, muitas vezes a pobreza é até mesmo um bom símbolo para aquele que “ama” o que faz.

O sujeito que está dentro do espaço social reclamado pelo mantra do amor ao trabalho é coagido a trabalhar e a amar seu trabalho![6] Além de te que trabalhar, ele precisa gostar do que faz! Nem mesmo a liberdade de se rebelar está disponível.


E nunca mais fará uma greve.

O trabalhado revertido em “amor” acaba com a possibilidade de observá-lo enquanto exploração. O paradigma da funcionalidade complementar não é absorvido pelos funcionários, ou seja, não importa, para eles, se os funcionários e o patrão vivem em uma cooperação, mas o paradigma do antagonismo também não é absorvido, pois eles não acham que o patrão é uma figura oposta. No fundo, o paradigma da felicidade individual anula estes dois para o funcionário e deixa o caminho livre para o paradigma funcionalista por parte das empresas.

Ou seja, o imperativo da felicidade individualiza ao máximo e impossibilita que o engajamento na esfera econômica seja de produtores, mas incita que, no máximo, haja pequenos eventos coletivo de consumo. O trabalho é tido como algo que permite comprar, por que é dele que se ganha o dinheiro – o trabalho deixa de ser o labor para se tornar o amor. Mas só os cosmopolitas das universidades de comunicação, moda, administração e correlatos podem amar seus trabalhos.

Quem precisa do trabalho para pagar contas está fora deste mundo legítimo. O trabalho legítimo passa a ser aquele que você faz por que ama, então não é nem mesmo correto moralmente discutir salários. As greves perdem seu sentido na hora e toda negociação salarial coloca em risco o status de “amante do trabalho” que alguém pode ter. Todos os trabalhadores que estão fora do mundo de trabalho intelectual ficam na marginalidade por que, de fato, é na marginalidade que eles devem ficar para a globalização.

São os funcionários informatizados, criativos, que devem ter um tratamento diferenciado, pois são a superfície feliz e privilegiada do sistema capitalista global. São os satisfeitos. Enquanto isso, todo o mar de trabalhadores explorados até a última gota de suor precisa ser escondido e deslegitimado. A luta trabalhista vira uma luta de “gente que não sabe o que é trabalho”.


Notas
[1] Artigo publicar originalmente no Colunas Tortas em: https://colunastortas.wordpress.com/2014/05/20/o-mantra-maligno-do-ame-o-que-voce-faz-faca-o-que-voce-ama/

[2] https://colunastortas.wordpress.com/2014/05/15/o-que-e-pos-modernidade-resumo-de-uma-falencia-da-modernidade/

[3] https://colunastortas.wordpress.com/2014/02/05/o-que-e-alienacao-em-marx/

[4] https://colunastortas.wordpress.com/2013/08/07/amor-liquido-zygmunt-bauman-uma-resenha/

[5] https://www.youtube.com/watch?v=UF8uR6Z6KLc

[6] http://www.lrb.co.uk/v21/n06/slavoj-zizek/you-may

*Disponível em "http://ofatoeahistoria.webnode.com/news/o-mantra-maligno-do-%E2%80%9Came-o-que-voc%C3%AA-faz,-fa%C3%A7a-o-que-voc%C3%AA-ama%E2%80%9D/". Acesso em: 02 de Junho de 2014.

23 de mai. de 2014

JUIZ AFIRMA QUE A FÉ AFRO-BRASILEIRA NÃO É RELIGIÃO

No mês de maio de 2014, em meio a todo o clima de manifestações e greves, o que voltou a atenção da sociedade para discussões políticas - principalmente os objetivos e métodos de como se deve fazer uma greve - fomos pegos de surpresa por algo que fugiu aos padrões das discussões. A intolerância religiosa novamente tomou posicionamento.

Juiz Eugênio Rosa de Araújo
O Juiz Federal da 17ª Vara Federal, Eugênio Rosa de Araujo, se posicionou de forma contrária a uma decisão do Ministério Público Federal sobre a retirada de vídeos ofensivos no site Youtube feitos por neo pentecostais aos praticantes de religiões afro-brasileiras. A justificativa do juiz foi a de que “manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem religião”.

Essa decisão explodiu revolta não apenas entre os praticantes da Umbanda e do Candomblé, mas entre seus simpatizantes e parte da sociedade que compreende a importância de tais religiões na formação da cultura brasileira. Tais revoltas se manifestaram em atos de rua, com o posicionamento da mídia a favor da opinião pública e de discussões via rede de comunicações por internet, o que fez com que o MPF pressionasse o juiz Eugênio, fazendo-o voltar atrás sobre seu posicionamento.

Os argumentos do Juiz Federal nos mostra que o perigo da intolerância religiosa está para além da existência de líderes religiosos extremistas nos cargos políticos. Essa argumentação usou um discurso técnico, ou seja, sem fala religiosa, o que prova que a própria formação da política brasileira se constrói sobre preconceito cultural, valorizando muito mais formas de culto de base europeia.

Toda solidariedade as religiões afro-brasileiras!
Nós da UJC percebemos que o posicionamento de uma figura pública de alto escalão sobre uma temática tão polemica está presente no contexto de uma sociedade rigidamente hierarquizada. Essa mesma sociedade se vê desesperada com o aumento da voz política e da luta das classes marginalizadas e majoritariamente negras, que estão expondo seu cotidiano e práticas culturais por conta própria, não mais dependendo da aprovação da “moral e dos bons costumes” dos burgueses.

Nisso, lutamos juntos por uma cultura popular independente das exigências burguesas que as modificam para que sejam consideradas civilizadas, gerando o ódio pelo racismo e pelo preconceito de classe. Para isso, temos em mãos uma série de questões que devem ser debatidas e praticadas, principalmente sobre os caminhos a serem seguidos para a ampliação da liberdade de expressão.


Só assim conseguiremos fazer com que não apenas as religiões afro-brasileiras, mas o funk, o hip-hop, o grafite, as rádios comunitárias, a capoeira e demais atividades de caráter popular consigam construir seus próprios caminhos. Só assim podemos educar a sociedade para a compreensão sobre a intensa e complexa rede de práticas culturais diferentes que constroem nossa sociedade e o quanto elas precisam ser livres para se desenvolverem, sem a ganância por lucro e controle político da burguesia moralista e capitalista.




Texto do camarada Gabriel M., professor de História e
membro do Núcleo Elizeu Alves de Jovens Trabalhadores do Rio de Janeiro

28 de abr. de 2014

Às ruas construir o Primeiro de Maio do Trabalhador!

No dia do jovem trabalhador, 24 de Abril,  mais uma vez a União da Juventude Comunista vai às ruas dizer não a precarização e a descartabilidade da juventude. Somamos nossas forças com a classe trabalhadora para construir um 1º de Maio forte e unificado contra os patrões e as centrais que venderam o dia do trabalhador para realizar uma "grande festa". Mostramos nas ruas que não existe "dia do 'Trabalho'', como é vendido pela mídia e os grandes empresários, e que a causa do aumento da greves é a crise mundial do capitalismo. Precisamos da unidade da juventude e de levantar bem alto a bandeira vermelha da luta.



PASSEATA DO DIA DO TRABALHADOR:
DIA 01/05 - 10 horas no ponto de ônibus em frente à FIO CRUZ 
Endereço:( Av. Brasil, 4365 - Manguinhos ) 

1 de abr. de 2014

3º Ato Finalizado na Rodoviária de Teresópolis Consegue Aproximadamente 1.700 Assinaturas

Nesta tarde-noite o movimento contra o aumento das passagens se concentrou na Calçada Fama para finalizar a coleta de assinaturas do abaixo assinado pedindo ao executivo municipal o não reajuste pleiteado pelas empresas concessionárias. O PCB (Partido Comunista Brasileiro) e a UJC lá estiveram junto com a juventude teresopolitana desde o 1º Ato. Após agitação na Calçada, o movimento voltou a ocupar a rodoviária para coletar assinaturas dos teresopolitanos do 2º e 3º distritos, ainda mais explorados pelas empresas de ônibus. O 3º Ato encerra a coleta de assinaturas contra o aumento do busão. Foram aproximadamente 1.700 assinaturas recolhidas em apenas 3 semanas, o que demonstra o total apoio da população de Teresópolis ao movimento. Agora o Abaixo Assinado será protocolado na prefeitura. Estamos de olho e vigilantes na defesa do povo teresopolitano.

Fonte: http://pcbteresopolis.blogspot.com.br/2014/03/3-ato-finalizado-na-rodoviaria-consegue.html

25 de fev. de 2014

Companheiro Fernando Santa Cruz: Presente!

Nesta última sexta-feira, dia 21 de fevereiro, ocorreu na OAB-RJ uma sessão solene em homenagem aos 40 anos de desaparecimento do estudante de Direito da UFF e militante do movimento estudantil:  Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira. 

Desaparecido no ano de 1974 durante a passagem do Carnaval na casa de um de seus irmãos no Rio de Janeiro. Preso e nunca mais visto, hoje é sabido que Fernando foi mais um lutador assassinado e incinerado na usina  Cambahyba em Campos dos Goytavazes (RJ), mesmo destino do camarada David Capistrano, militante e membro do Comitê Central do PCB. Na sessão houve também  o relançamento do livro sobre Fernando: "Onde está meu filho?".

O evento aconteceu de forma emocionante, com a presença de familiares, amigos, companheiros de Fernando e de coletivos que lutam pela abertura dos arquivos da Ditadura, como o grupo Tortura Nunca Mais.  A UJC marcou presença no evento e se solidariza com todos os familiares das vítimas da Ditadura! Lutamos pela abertura total dos arquivos da Ditadura, com a punição de todos os torturadores! Não nos calaremos e não vamos parar de lutar para manter viva a memória de nossos camaradas que tombaram nesse período!


A história mostra que as classes dominantes não hesitam em utilizar dos mais sanguinários recursos, quando querem impor seus interesses... Ainda, infelizmente vemos que resquícios da Ditadura ainda persistem na nossa sociedade. Basta vermos o genocídio da população negra e pobre nas favelas, a prisão dos manifestantes e a criminalização dos movimentos sociais e dos lutadores! A UJC mantém viva a memória de Fernando e de todos os camaradas que foram brutalmente assassinados durante a Ditadura! Mantendo a luta por uma sociedade mais justa e sem exploração! Para que não se esqueça e para que nunca mais aconteça!

4 de fev. de 2014

Pela Estatização da Univercidade e Gama Filho.


Os estudantes e trabalhadores da Universidade Gama Filho e da UniverCidade há mais de um ano vem enfrentando uma intensa jornada de lutas através de greve, ocupação de reitorias e mobilizações contra os desrespeitos (não pagamento de salários, falta de professores, aumento abusivo de mensalidades, demissões em massa, cancelamento de cursos e transferência de matérias) por parte dos empresários do grupo Galileu (Grupo dono das duas universidades).

O Ministério da Educação (MEC) que através do PROUNI canalizou durante anos verbas públicas para esses grupos privados da educação, diante do impasse vivido por essas duas universidades, apresentou como solução o descredenciamento das mesmas e a facilitação da transferência desses estudantes para outras universidades privadas.

Nós da União da Juventude Comunista nos solidarizamos com a luta dos estudantes e trabalhadores dessas duas universidades por condições dignas de estudo e trabalho e acreditamos que a solução apresentada pelo Ministério da Educação deveria ser a Estatização da UniverCidade e da Universidade Gama Filho.

A UJC defende a imediata estatização das universidades privadas, colocando-as a serviço dos trabalhadores, defendendo seu carater publico, laico, de qualidade e acima de tudo popular.



Coordenação Estadual da União da Juventude Comunista - Rio de Janeiro